"A Senhorita X afirma que não tem mais cérebro nem nervos nem peito nem estômago nem tripas, somente lhe restam a pele e os ossos do corpo desorganizado [...]"

quarta-feira, 14 de julho de 2010


a placa dizia: "restaurante". pensou nos trocados no bolso e no que deixara em casa. não importava, por hora. subiu as escadas engorduradas, preparou o prato, sentou-se. pelos vidros embaçados mirou a rua. sentiu-se velha. tão velha quanto a morte. estava triste. ultimamente, perguntava-se com certa freqüência se estava contente ou apenas medicada. não gostava das medicações mas engolia as pílulas sem pensar muito. pensar poderia estragar o efeito daqueles 20mg de felicidade diários.
concentrou-se em comer: agarrar, mastigar, engolir. [como desejou seu canto! o canto onde sentia-se mais que segura e confortável. por quanto tempo ainda seria “seu”?] negou cada pedaço de esperança que vinha a mente. não queria ter esperança. sempre adiara tiros certeiros para agonizar na esperança de ser socorrida. mas nunca havia socorro.
rejeitou o restante da comida que ainda havia no prato. havia mergulhado tão fundo, num lugar tão escuro, que quando voltou as moscas já festejavam em volta das batatas gordurosas. levantou-se, pagou a conta, desceu as escadas ensebadas e pensou nos olhos que sempre a seguiam. não havia mais fuga.

é, o mais provável é que o mundo siga adiante.

segunda-feira, 21 de junho de 2010


[...] com os dentes arrancou a própria língua. sentiu o cortar do músculo e a dor. mas não houve sangue. com a mão direita enfiada pela garganta feriu aquilo que conseguia. sentiu a dor. mas não houve sangue.
com o metal arrancou a pele. já não sentia mais a dor e ainda não havia sangue.
nos músculos apenas pó preto.
aos poucos retirou os músculos e órgãos internos. era penas esqueleto.
e ainda assim não encontrou sangue.

estava seca.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

desérticos canibalismos



encontraram-se no mato que cruzava a estrada de chão do terreno deserto. não foi preciso muito, de pronto perceberam: o deserto era eles.
em meio estouro tudo virou lama, a cada passo dos pés cansados mais lama a cobrir dedos e calcanhares, murchos, rasgados, antigos, cansados.
deram-se as mãos [o que mais podem fazer os beduínos que se perdem na trilha deserta de sal?]. olharam como estranhos um ao outro. jamais haviam se visto, embora fossem velhos conhecidos – amigos, alguns diriam.
vendas negras não permitiam que se aproximassem. apenas tocavam-se com pontas de dedos sem digitais e línguas mortas. devoravam-se aos milhares.
depois, os dentes passaram a morder mais devagar. a mandíbula tornou-se mais lenta, porém, mais forte. mastigavam-se por horas. eram órfãos famintos: odiosos, repulsivos e de mãos dadas parados no negrume da estrada.
a loucura de um alimentava a insanidade do outro. 
descansados, novamente, comiam-se. 




[imagem: women running on beach - pablo picasso (editada)]

quarta-feira, 5 de maio de 2010

[...]

tenho passado semanas atemporais.
passo o dia esperando o crepúsculo vermelho e a noite aguardando a aurora – ambos, pouco me trazem de novo.
tenho tido poucas certezas e muitas dúvidas.
não sei em que dia estou, nem quantos se passaram.
burocracia deixou de ser uma palavra enfrentada por mim.
pouco espero pois nunca sei do que vem.
as frases e os pensamentos estão elevados – em um estágio de vapor. moléculas dispersas, nada novo. nem antigo. talvez apenas o sempre diferente mesmo.
tenho andado torta, sem simetria, sem saber qual fôrma me cabe.
sinto como nunca. mas não prevejo nada. mantenho-me ignorante.

auroras e crepúsculos chegam e se vão. que novidades trarão do deserto, da sede e da fome?
a loucura é uma resposta confiável.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

domingo, 11 de abril de 2010



anda morte:
rua, lua, eternidade;
corre que já está sem tempo.

ruge morte:
santo, sujo, profano;
transa que o tempo te fará estéril.

grita morte:
dentes, garras, pele;
fala antes que o tempo te faça emudecer.

esteja morte:
sempre, por, perto;
antes que se vá com o tempo.


[imagem: salvador dali - horseman of death]

terça-feira, 6 de abril de 2010

possessão cigana



a lua míngua durante a tarde;
à noite, já não se vê seu círculo prateado.
é quando desperto, cheia de versos presunçosos
e pensamentos pecaminosos.

sinto o ar frio [do quarto de vampiros]
e sinto o oposto.
aturdida de despertar, dou-me conta de que
ao meu lado há:
um corpo atômico-radioativo.
emana calor para todos os lados,
torna quente a cama fria, torna quente o ventre frio.

como no despertar vampiresco é hora de sugar.
e me alimento do calor desse corpo;
e nele me aninho,
nele faço ninho – de corpo, cobertores e penas
[penas de grande pássaro negro]
mas o ninho está vazio.
o ventre está vazio.

um dia, ah!, como pensei que não – mas estava tão errada, tão errada!
um dia, o ventre há de ser preenchido,
para ocupar o ninho.

[o erro foi meu: demorei a perceber que meu ventre estava guardado para abrigar aquele que nascerá do homem que possui o anti-cristo no - e pelo? - corpo.]

mas não antes de voarmos.
haveremos ainda de voar muito:
ele com suas grandes asas de corvo;
e eu com minhas novas asas -
presente de meu ama[nte]do.

e ensinaremos o rebento de Samael
a voar.
alto. muito alto.

e seremos, finalmente, em um: um
mistura pseudo-genética.
e no mundo haverá um[a] nova vida;
e re-nascerá o veneno de cristo:
do ventre de uma serpente que se apaixona por um corvo.

veneno, morte, destruição:
é assim que a nova vida se fará.
com a explosão do caos, é que nascerá nossa estrela.
nossa estrela perpétua.

segunda-feira, 29 de março de 2010

de vez em quando penso que ele lê meus pensamentos.
muitas vezes penso que é loucura.
de vez em quando penso que realmente nascemos destinados à nos encontrarmos.
muitas vezes penso que isso é loucura.
[mas aos diabos com o que é loucura! de que vale ser são nesse mundo de baratas, com seus passeios de baratas. e a bem da verdade, há muito não me importo com o que é ou não verdade.]

e, entrego a muitos o que ganhei no dia em que as mães dizem que é certo que as "fases passam":

"'Riddle me this':
dois olhos maquiados, vindos de baixo
um olhar das alturas
intensa, sexy, marcada, alva
com carinho, a vejo de longe
com amor
pequena, espreita o meu sono
dentro de mim: costurando, costurando
a acordo violentamente
e te trago pra junto de mim
com amor
pra bem perto
pra sempre?
eu gostaria
gostaria
sim

te amo, meu bebê."

o mistério? é estarmos grudados.

domingo, 21 de março de 2010

uma flor: com amor


não sei nos apaixonamos por sermos loucos, ou, se sermos loucos foi o que criou a possibilidade de nos apaixonarmos.

e, no final, apenas penso [e não resisto]: rir das pequenas coisas e sentir o coração pular por uma flor que nem sequer foi ganha, sim, é pura loucura.

amo-te, §.

sábado, 20 de março de 2010

"...e um verme devorou o outro."

é isso? tudo se resume nisso: maldade?

sexta-feira, 19 de março de 2010

sossegue coração

       "sossegue coração
ainda não é agora
       a confusão
prossegue
sonhos a fora

       calma calma
logo mais a
gente goza
       perto do osso
a carne é mais gostosa."

[por paulo leminski]

p.s: obrigada, rodolfo, por me permitir ler esse poema.

terça-feira, 16 de março de 2010

el cuerpo


cabelos castanhos sempre despenteados, postos por sobre uma cabeça cheia de pensamentos nem sempre corretos, nem sempre belos, mas, livres, que fluem – fluxo que não pode ser interrompido – e pergunta-se o que poderia detê-lo.
boca que morde e beija com a mesma intensidade: insaciável. boca que acalma e faz eu me sentir a mulher mais linda do mundo, boca obscena, sem freios. boca que grita, que fere.
braços marcados – “defeitos de fábrica” – e cicatriz. minha cicatriz. minha forma de dizer: habitei seu corpo.
mãos macias que me acariciam e me tocam com desejo, que me esfregam e batem, me seguram e estrangulam. mãos que fazem eu me sentir menina. ás vezes, mãos de homem: que quebra, bagunça com meu coração, atira coisas pela janela e só me dá duas opções: desapegue-se ou faça algo que não possa ser arrancado.
peito que guarda um coração frankstein: feito de pedaços de várias ocasiões, costurado em alguns pedaços, sangrando em outros. coração amoroso que me quer bem. coração que completa.
pênis e ânus: onde ele está quando tudo vai bem. onde gosto de tocar – são ele, desejo e intensidade.
pernas e pés para fugir comigo e me levar para bem longe.

*

"...não quero apenas morar com você. meu desejo maior é morar em você."

domingo, 14 de março de 2010


a serpente solitária descobriu seu caminho: atirou-se pela janela.
quem dera eu ter essa coragem.

não há mais mar, nem anel, nem símbolos, nem possibilidade de cura. só corações partidos e coisas quebradas [tudo, tudo está quebrado.]

e quem disse primeiro “eu te amo”, deveria estar morta.
e está.

quarta-feira, 10 de março de 2010

fome, sede - vontade.


eu sinto uma fome intensa de engolir o mundo – numa só garfada.
sinto-me sedenta de beber mares e oceanos, rios e cachoeiras, sangue e álcool.

num impulso, não sei mais que sou: viro criatura amorfa sem pudores, sentimentos, respeito... nada mais importa além da vontade. esta, ah, esta reina soberana sobre meu ser [em cada ato, em cada palavra de sal, em cada lágrima doce – minha ou de outros].

vontade: que me trás desespero, angústia, pulsão, morte, vida, felicidade [quase sempre, tudo isso é clandestino], marca nos pulsos, no braço dele, em minhas pernas... nas pequenas feridas.

§

não consigo dar ordem ao meu caos - o caos cá dentro. creio que explodirei em milhões de estrelas.

 
meu amor, meu bem, sacie e mate, minha fome de vampiro se não eu piro [...] não me desampare, ou eu desespero!”
- zeca baleiro.

terça-feira, 9 de março de 2010

declaração


renunciamos: sem culpa, a nossas genitálias. não temos apenas uma ou duas, mas várias.
abdicamos: ao direito de sermos dois. somos um. metades separadas que se unem, mas, em cada metade há sempre mais de um - milhões!
dançamos: pois só o acaso é quem guia. sem planos. não, não somos desses.
cegamos: aqueles que nos olham. é preciso força no globo ocular [ou em outro lugar?] para encarar-nos de frente - demônios passeando são difíceis de se ver.

por fim, creio que apenas nos juntamos, nos infectamos - vírus, é isso que somos.
legiões.
e continuamos [sem saber bem porque - e haveria de ter um?], sem subtrair, apenas adicionando, multiplicando.

- so[a]mando. -

"anéis, o mar, cicatrizes e serpente[s]: nossos venenos."

quarta-feira, 3 de março de 2010

ode [d]à feiticeira



- como te atreves? - foi o que primeiro a feiticeira perguntou.

havia guardado, a sete chaves, nove cadeados, vinte portas de gelo maciço, dentro de si, lá onde as mãos não alcançam a caixa azul.
e de repente, ele aparece. ignora seus poderes, ignora o frio cortante que havia ao seu redor e crava em seu peito suas mãos alvas para tirar-lhe seu objeto mais perigoso.
não foi por querer, ela havia guardado a caixa por segurança: seu conteúdo não era para qualquer um.
mas ele queimou as mãos. e ele tinha as chaves. as chaves azuis. e abriu a caixa.

de um tudo que há nesse mundo, entre sentimentos e confusões, saiu de lá. a feiticeira sentiu raiva dele.
- quem era esse que tinha a coragem de re-mexer em seu interior?

a feiticeira sempre foi conhecida por sua frieza. deitava-se na cama de muitos e só gelo lhes dava. era azul. já fora de outra cor, mas, aos poucos, foi tornando-se azul e cinza. fantasma. intocável que atravessa paredes e brinca com sentimentos alheios. boca fria, olhos frios, pele fria – sintética.

mas uma vez aberta a caixa, nem mesmo ele conseguiu fechá-la novamente. e o mundo explodiu dentro dela como num novo big bang não-científico-dolorido-colorido-assustador[ido?].
de azul e cinza, voltou ao vermelho. lá em suas artérias o sangue fluía novamente. quente, grosso, com [pouco] gosto de ferro.

aquele homem tomou a feiticeira por abrir-lhe a caixa, mas machucou-se. era inevitável. a caixa continha não só um calor extremo, como monstros que ela ainda não havia aprendido a domar.
mas houve mais: nas mãos dele a caixa ganhou mais um objeto para [su]portar -uma felicidade sem tamanho da qual ela, no mesmo instante, teve medo de que não durasse.
e afastou-se. e foi embora. e sentiam falta um do outro, como duas metades separadas de um mesmo coração.

mas pólos que tendem à se unir não se separam, então, encontraram-se novamente, e novamente, tudo explodiu.
a feiticeira, acostumada a abrir caixas e portas, diante daquele homem ajoelhou-se: ele a havia exposto só para si, como uma brincadeira. mas expôs-se para ela. e sorriram: as duas metades estavam novamente juntas.

por quanto tempo agüentariam a explosão? nem mesmo as melhores feiticeiras saberiam dizer, mas eles estavam ensinando-se. amando-se.

então, a feiticeira riscou de seu caderno as palavras: culpa, medo, ciúmes, cristianismo, moral e tantas outras que sempre a atormentavam como se, a qualquer momentos, fosse afogar-se em uma sopa de letrinhas – mas estava reformulando algumas.

o medo do homem para quem estava exposta, passava aos poucos e ela sonhava em sua cama quente e sua nova cor: vermelha como fogo, paixão, cabelos, ódio e angústia.

§

onde forem seus pés, os meus o seguirão. tudo em que tua mão tocar, a minha também sentirá. suas dores serão minhas dores, sua felicidade é a minha. o que teus olhos enchergarem será visto pelos meus. e dançaremos, daremos gargalhadas e atearemos fogo: oroboros.

terça-feira, 2 de março de 2010

súbita mão de algum fantasma oculto entre as dobras da noite e do
meu sono
sacode-me e eu acordo, e no abandono
da noite, não enxergo gesto ou vulto.

mas um terror antigo, que insepulto
trago no coração, como de um trono
desce e se afirma meu senhor e dono
sem ordem, sem meneio e sem insulto.

e eu sinto a minha vida de repente
presa por uma corda de inconsciente
a qualquer mão noturna que me guia.

sinto que sou ninguém salvo uma sombra
de um vulto que não vejo e me assombra,
e em nada existo como a treva fria.


















- por fernando pessoa.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

every you - every me


ele dorme, eu escrevo. eu escrevo, ele lê. ele vai dormir e eu vejo seriados na TV. eu cozinho e ele navega. e comemos, devoramo-nos.

ele acha que tem um quê de maldade. eu me acho um monstro lamacento. ele crê que já causou dores, eu creio que já causei dores.
nos separamos e sinto saudades. ele ocupa boa parte dos meus pensamentos, nunca sei no que ele pensa.
somos do submundo: onde há prostituição, promiscuidade, inversões e diversões nos sentimos em casa.
a casa dele é diferente da minha. tudo parece mais aconchegante, mas a cama fica fria quando ele não está lá.
eu tempero o que ele come, ele tempera meu tédio: deixa tudo mais saboroso.
eu deixo a casa com cheiro de cigarro, ele briga. eu finjo que não ligo.
ele, às vezes, é mais novo que eu. eu, às vezes, sou mais nova que eu.
ele gosta de vulgaridades, eu gosto de ser vulgar para ele. gosto de estar aberta, exposta, à sua disposição.
ele é carinhoso, amoroso, quente, atencioso. ser amado. por mim e tantos outros.
ele gosta do meu cabelo e da minha pela branca manchada de vermelho. eu gosto da sua barba e de quando me algema.
ele jogou pela janela um objeto que demoramos para encontrar, um símbolo de um dia feliz. e eu chorei. mas tudo bem, nosso compromisso foi cauterizado em nossas peles – ferro e fogo.
ele transforma a dor em raiva – pulsões de ódio – eu transformo a dor em choro – pulsão de desespero.
eu preciso dele e creio que ele também precise de mim: agulha, linha, álcool e remédios. §- costurando -§

--[quem sabe um dia a gente se cura.]--

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

óh, meu amor, como os seus medos estavam invertidos.
você não faz ou fez mal à quem quer que seja.
não deveria jamais ter tido medo de me machucar, pois, eu sabia, que o primeiro golpe [e provavelmente todos os outros] seriam desferidos por mim.
cravei uma faca em seu peito e não sei como tirá-la.
queria curá-lo e o feri ainda mais.

mas, agora, agora sei o queve ser feito de mim:
1. corte minhas mãos. elas jamais acariciaram alguém. apenas arranham, machucam, são providas de unhas venenosas: mãos de um midas. depois, queime-as, e te garanto, meu amor, que para onde forem suas cinzas nada nascerá além de ervas venenosas.
2. corte meus pés. eles sempre estarão andando por caminhos irônicos e egoístas. são pés sarcásticos, patas de bode. queime-os também e o destino do local de suas cinzas será o mesmo de minhas mãos.
3. machuque todo o restante do meu corpo, como num suplício medieval. esse corpo é o que carrega a maldade [tenha certeza de que a cabeça seja bem triturada], depois, faça dele o que quiser, mas não o toque. há sangue de sicuta correndo por minhas veias.

e então, só então, não te farei mais sofrer.
é provável que sinta minha falta, mas a hipótese é quase correta: morta te farei menos mal do que viva.
paraíso ou inferno?
achei que havia vislumbrado um dos dois
pura mentira.

é sempre a mesma merda.
expulsa-me mas não tenho coragem de ir;
e durmo na sala, enrolada no vestido psedo-retrô de bolinhas sem saber o que houve, de verdade.

será que você poderia me explicar?

 p.s.: tentei sumir de novo. sem você a vida não faz sentido. mas não tinha os acessórios adequados. não consegui ir embora. explica-me: o que fiz de mim?

não sou nada além de merda, que bóia...
deveria ter percebido issso antes.

I love you.
yo no me imagino sien ti. és parte de mi vida, de mi cuerpo, de mi sangre.

indefesa, humilhada, sangro por ti.
explica-me: o que fiz?

talvez seja como minha mãe sempre disse:
- sua natureza é má e tudo o que provém dela só causa dor e desespero.
é bem provável que ela não esteja errada.

eu sou o caos,  se não suporta issso, afaste-se de mim enquanto é tempo: não quero macular sua santidade, quero morrer.

levem-me, demônios, anjos, sejam lá o que for. porque você é minha razão de viver e sem você, nada mais importa.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

era uma vez...

uma pequena moça, de dez anos, que caminhava pela floresta levando uma cesta em meio a escuridão. o escuro não a assustava, nunca teve medo dele. mas, perguntava-se sobre os objetos que carregava em sua cesta: porque o homem, que havia sido tão gentil com ela, oferecendo-lhe uma brincadeira em sua casa durante a noite, havia pedido aqueles objetos em específico? sua imaginação vagueava pelas centenas de brincadeiras que poderiam fazer com aquelas coisas que havia roubado da despensa de seu pai.

chegou à porta da casa do homem e tocou a campainha. não houve resposta. será que ele havia se esquecido do que tinham combinado e ela voltaria para casa sem nenhuma diversão? será que teria sido inútil fugir no meio da noite e, sorrateiramente, como uma gata, passar pelo pai dormindo na sala, mexer em sua caixa de ferramentas e ir andando, quase saltitando com a mente cheia de idéias até lá?

[foi tomada de assalto por um sentimento que não sabia bem explicar o que era. se o homem não abrisse a porta, sentiria-se... rejeitada? desejava intensamente estar perto daquele homem novamente, e a porta fechada significava o fim... mas o fim de que? sentia-se como se estivesse prestes à ser apresentada a um novo mundo: um mundo mágico, e não queria perder um minuto, nem mesmo um segundo, para estar naquele mundo.]

não, não foi inútil. o homem abriu a porta. do escuro onde estava observou a silhueta do homem na penumbra que tomava, o que ela pensou ser, sua sala: ele era alto, tinha mãos grandes e brilhantes olhos castanhos que se escondiam por de trás das lentes do óculos de aros negros... mas não à assustava, tinha um olhar caloroso e confortador.

foi convidada à entrar, sentou-se e conversou bastante com aquele semi-desconhecido... num momento, olhou para as mãos do homem e sentiu-se pequena, infantil em seu conjunto de saia e blusa vermelhas.

ela não saberia dizer bem como tudo começou, lembrava-se apenas da frase:
- chegou a hora de nós dois brincarmos.

o homem, então, mexeu em sua cesta e tirou de lá um par de algemas e uns pedaços de corda.
- espero que goste da brincadeira, mas, não preciso de esperanças: sei que vai gostar.

antes de qualquer reação sua, as enormes mãos do homem tocavam seu corpo, algemavam-na e amarravam-na no sofá em uma posição que a deixava exposta. sendo ainda criança e sem muitos pudores, não sentiu muita vergonha, estava apenas curiosa para saber como seria a brincadeira.
e, rapidamente, descobriu: antes de qualquer ação, antes de respirar, antes de conseguir fechar e abrir os olhos ou proferir qualquer palavra, o corpo do homem estava sobre o seu, rasgando sua calcinha, tocando-a, penetrando-a. sentia uma dor muito forte e começou a chorar. as mãos do homem foram até a sua boca, tapando-a: - quietinha, minha menininha putinha.

não sabia o que fazer, sentia-se suja e dolorida, mas... num impulso e estremecer sentiu uma corrente elétrica que percorreu todo o seu corpo e foi parar lá onde o homem a penetrava. não sabia o que havia sido aquilo, mas, percebeu que, no mesmo momento, mãos foram postas em volta de seu pescoço privando-a de respirar, e, logo depois, tudo acabou.

o homem já não estava mais sobre ela e ela não sabia o que pensar: o que havia sido feito dela? mas não pensou mais... com as mãos agora livres [podia fugir, se assim desejasse, mas não o fez] tocou-se entre as pernas e sentiu o calor e os líquidos que escorriam; levou as mãos à boca: gosto de sangue, gosto do homem e seu gosto. um gosto que jamais havia sentido. olhou para aquele semi-desconhecido e não se sentiu mais pequena, nem infantil.

então, como quem toma repentinamente uma decisão ao entender o que ocorre, levantou-se e sentou-se no colo do homem, quente, confortável e proferiu uma única palavra:
- ensina-me.


moral da história: [com o perdão dos psicólogos] – crianças também gozam [e gostam!]

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

[- caio fernando abreu]

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

; “sim, eu desejo isso. aquilo que diriam incorreto, ou imoral: quase tudo o que é assim nomeado atrai meus sentidos.”
[chicotes, velas, lâminas – frias ou quentes – palmatórias, algemas]: masoquismo.


sem regras. não há manuais ou livros: apenas corpos excitados, palanques de pura infecção. sexualidade? jamais no singular. sempre plural: sexualidades.

o singular cria barreiras, juntamente com as regras rígidas. oras, como pode a intensidade circular e fluir se há muros de leis não flexíveis, se devemos chamá-la com um detestável final desprovido de “S”?

nós, criaturas, já saímos à luz do dia mostrando nossos corpos marcados [feridos, machucados, doloridos]: atitude anti-lei-sanitária. querem nos tratar e diagnosticar, mas não estamos doentes. os diagnosticadores sim, esses encontram-se enraizados dentro dos piores tipos de doenças: deus, ciência, lei do homem – todas vindas de uma mesma bactéria comum, a necessidade do metafísico, do superior, da VERDADE.

por isso, aos espertos, cabem os passos leves, enganadores: fuga noite a dentro, atitudes bárbaras, sobriedades momentâneas em meio à toda ebriedade que nos conquista e arrasta.

procure um caminho tortuoso [mas não procure luzes no fim], passe por ele, abra uma porta qualquer, relevo ou adjacência e corra: saia de si.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

when, where and why? whatever.


hoje o meu desejo é apenas recostar.
pensar: será fraqueza ou dupla força?
será um anel apertado no dedo ou será a impossibilidade de nós e nossos anéis chocarem mais que dedos livres que nos faz gargalhar?
 será desespero ou aspiração?

não, não é fraqueza, não.
é apenas vontade de união.
união ao nosso jeito: sem subtrair, apenas multiplicando.

1. o que estamos fazendo?
R: so[a]mando.


sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

in-verção, in-venção, in-volução



olhou de cima e observou a criatura amada na posição que gostava de ficar e fazer ficar.
as marcas – negras e vermelhas – tornavam tudo mais excitante, mas era preciso calma.
tocou, devagar, com a ponta da língua as áreas em torno daquilo que queria explorar melhor. experimentava devagar. sentia os gostos e os cheiros e excitava-se com aquilo que ainda não havia feito.
molhou a ponta dos dedos e passou, com leveza, o indicador em seu cu. num momento, sua língua já não experimentava levemente. sugava. beijava. queria aquele gosto em sua boca mais que já quis muitos, muitos outros.
então, preparou-se.

– devagar.

obedeceu. sempre obedecia. mas nem sempre se continha.
quando enfiava com mais força ouvia gemidos mais altos, gritos...
enrabava seu dono, seu senhor. o ouviu gozar de quatro, como mulher.

[gostava[m] daquilo]

o sentiu estremecer e ouviu seus gemidos, grunhidos: devir animal – cão e cadela em inversão; devir masoquista: senhor e escrava. violência que devém.
gozo que devém: dois como matilha de cães – involução.


[contaminação do desejo-prazer-gozo de um no outro]

§


“quem não conheceu a violência dessas sequencias animais que, o arrancam da humanidade mesmo que por um instante [...]?”
- deleuze; guattari.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

"[...] a gente se apertou um contra o outro. a gente queria ficar apertado assim porque nos completávamos desse jeito, o corpo de um sendo a metade perdida do corpo do outro."


[caio fernando abreu]

domingo, 31 de janeiro de 2010

maybe


eu me engano demais ou engano demais?
confundo-me entre o que sou ele-ela-ilo-aquilo... esqueço-me do individual e choro as mágoas de meus impulsos que atingem mais do que eu.

EU?

quem sou eu? o que fiz de mim?
entrei por um corredor reto e perdi-me.
o vestido não me cabe mais. alargou-se.
ou será que fui eu quem diminuiu?

talvez eu não agüente tantas quedas quanto § pensa.
talvez eu jamais tenha levado um tombo se quer.
talvez, talvez... talvez apenas um tropeço acabe com minha altura.
talvez eu tenha apenas 1,60m e nada mais.


*

não sou rizomática. sou raiz podre por de baixo da terra.
sou verme rastejante, parasita.
não sei ser compainha ou campanheira.
somos eu e meu egoísmo. vivo assim. de um lado para outro buscando quem o suporte e não há ninguém.
o mundo é deserto e minha mente é podridão.

*

talvez, a única porta do corredor que eu tenha aberto tenha sido a que leva à morte [segredo da vida?]... ouço seus gritos e as cicatrizes coçam e me imagino com asas para voar... ah! se eu tivesse asas...

*

livra-me de meu toque de midas. livra-me de causar medo e dor.
livra-me da morte.

“cuando yo te vi en la lluvia me prometiste tu sangre...”



“[...] cargo un navaja [dios mio] para ti.



----...ademas me muero por ti...-----


quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

um conto infantil


sempre que pensava nas cortinas preocupava-se com o monstro por de trás delas.
não sabia se por medo ou [com]paixão.
dormia e sonhava com o monstro deixando seu secreto esconderijo e visitando-lhe.
acordava assustada como quem sonha que está caindo: tinha medo de altura.
mas o monstro não tinha rosto. isso à incomodava. precisava dar-lhe uma face, pois, ela sabia que o monstro existia, mas jamais pôde encará-lo, abrir as cortinas.

*

sem muitos temores [não sabia de onde lhe vinha a coragem] ergueu as cortinas e viu o monstro.
num primeiro momento, ele ofuscou-lhe a visão. tudo ficou turvo.
quando seus olhos voltaram a enxergar, a primeira imagem que viu foram os olhos do monstro.
não eram maus. nem assustadores. eram como os seus. castanhos, curiosos. pareciam conhecer o terror e a cólera, mas havia neles coragem – uma coragem com a qual ela jamais havia cruzado.
olhou, então, finalmente, a face do monstro que, em metamorfose, já não era mais monstro.

era um homem.

homem que ela mesma escondeu atrás das cortinas por não ter coragem de lembrar como era sua face.
ah, a face do homem-monstro! marcada por anos que ela ainda havia de viver e por um sorriso que ousava ser imperfeito.

e de súbito, o homem [já não-monstro] estava fora de seu esconderijo e ela descobria que era sua metade amada, perdida por décadas.

*







tomou o homem pelas mãos e o levou para a cama – para dormir e abraçar.