"A Senhorita X afirma que não tem mais cérebro nem nervos nem peito nem estômago nem tripas, somente lhe restam a pele e os ossos do corpo desorganizado [...]"
tempo 1: o tempo mais singelo: aquele no qual ainda não existia o pecado, em que não havia sono. mas um encostar profano de bocas incestuosas e o olhar sempre atento dos vigias acabou com esse tempo.
tempo 2: inicia-se o tempo dos médicos, das salas brancas, das folhas de colorir, das drágeas. sem glicose nem cafeína: apenas ritalina. tempo de sono e inércia: criança robotizada, lobotomizada por 20mg diárias. sleep, child, sleep.
tempo 3: veio o tempo de aprender o que era o pecado: eu era o pecado. toda a sujeira do mundo se concentrava no corpo, nos sonhos, nos desejos. vadiazinha imunda [e ainda tão nova]. foi o início da vergonha, da auto-punição, do medo de deus.
tempo 4: foi o tempo do homem e da metamorfose. foi quando a chama explodiu e queimou como nunca. foi quando eu descobri o paraíso e que aquilo deveria ser deus. mas era um segredo. segredo nos olhos negros cheios de culpa, segredo nos olhos castanhos carregados de desejos.
tempo 5: o tempo do primeiro abandono. o homem se fora e a raiva nascia gelada dentro de mim. deus me abandonara e eu abandonara deus. eu não era má. Ele era. tempo de nojo do masculino.
tempo 6: o tempo da maior vergonha. que tipo de ser era eu? uma aberração. voltaram os médicos e as salas brancas e depois, vieram as salas de igreja e os padres em suas imundas batinas fétidas falando-me sobre meus pecados: batizei-me novamente então como filha de satã. deus me odiava, mas, satã me adoraria.
tempo 7: veio o tempo da semi-coragem. quando me encontrei com ela e tudo podia ser feito. éramos uma, duas, três... éramos tudo. contra nós, a sociedade e seus olhares preconceituosos não eram nada. mas apenas cinco dias na semana. nos outros dois, era o tempo da punição por admitir por cinco dias o que eu desejava.
tempo 8: veio o segundo abandono. ela se fora e, junto com ela, a coragem. os olhares dos vigias voltaram. estavam por toda a parte, julgando, culpando, punindo. eu era o alvo. eu e todas as aberrações como eu. ocorreu a primeira tentativa de fuga: 16 comprimidos. fail.
tempo 9: a semi-entrega se deu. a tentativa de ser o mais “normal” possível com alguém que me desejava, mesmo como aberração. mas ele só conhecia metade das pulsões e não suportou todas elas e o tempo acaba como o tempo da dor, das feridas sendo re-abertas – o sangue escorria.
tempo 9/2: re-descoberta do desejo: dor e dominação. sangue e entrega. ah, vida, amor [?] e fuga desesperada!
tempo 10: encontra-se com o pior de si. fui apresentada a tudo o que eu podia fazer de mal à mim e aos que estavam à minha volta. conheci o meu mal. descobri como usar e manipular. mas ainda me envergonhava. trancava tudo em um baú dentro de mim. foi a era glacial. e veio a segunda tentativa: o sangue teimava em não permanecer nas veias. contaminação da aberração. fail.
tempo 11: agora, me parece o tempo de costurar e curar, o tempo de lutar. não há mais vergonha. os olhares ainda estão lá, mas me fazem rir. eles são aberrações, eles e suas repressões. zumbis. todos eles. o corpo já disse basta e passei a escutá-lo com toda a atenção do mundo. é o tempo da coragem. é a hora da guerra. os remédios passaram a ser outros, o sangue passa a ser outro. tempo de ouvir a voz dos desejos, tempo de ser e de expor. tempo animalesco.
“o gelo está derretendo, e as feridas virando cicatrizes. talvez, ainda chegue o tempo o ‘estar bem’. talvez, a coragem possa permanecer - dessa vez.”
tenho em meu colo diversos pedaços de pano para costurar.
cada pedaço vem de uma época diferente, cada um com sua lembrança. nem bons, nem maus: apenas fragmentos do passado.
em dois deles há manchas de sangue: uma, de um sangue aidético, de um passado um pouco distante mas ainda fulgurante na memória; a outra vem de uma veia da qual o sangue saudável desejava escapar para sempre. correr e [es]-correr até contaminar tudo. ambas as manchas são memórias cheias de dores incontáveis. fraquezas e abandonos – não só.
lavo-as? não. elas ficam nos pedaços de tecido. são marcas do passado. nunca serão removidas, mas é preciso fazê-las encaixar-se com os outros pedaços de pano.
tecidos do passado.
estou costurando, um à um, os pedaços e os [trans]-formando numa colcha.
alguns pedaços são fáceis de encaixar: o medo, as dores, o frio, o veneno, a fraqueza, o gosto pela dor, as pulsões, os desejos, as marcas, os olhares preconceituosos dos quais rimos – será uma gargalhada sincera?
com a colcha nos cobriremos e [des]cobriremos: eu e você. nos aqueceremos um no outro e, quem sabe, não hajam mais medo e frio.
"abriu então o saco, espiou um pouco. depois meteu dentro a mão magra e foi puxando o cachorro morto. todo ele se concentrava apenas na mão importante e ele mantinha os olhos extremamente fechados enquanto puxava. quando os abriu, ar estava mais claro e os sinos alegres tocaram novamente chamando os fiéis para o consolo da punição.