"A Senhorita X afirma que não tem mais cérebro nem nervos nem peito nem estômago nem tripas, somente lhe restam a pele e os ossos do corpo desorganizado [...]"
renunciamos: sem culpa, a nossas genitálias. não temos apenas uma ou duas, mas várias. abdicamos: ao direito de sermos dois. somos um. metades separadas que se unem, mas, em cada metade há sempre mais de um - milhões! dançamos: pois só o acaso é quem guia. sem planos. não, não somos desses. cegamos: aqueles que nos olham. é preciso força no globo ocular [ou em outro lugar?] para encarar-nos de frente - demônios passeando são difíceis de se ver.
por fim, creio que apenas nosjuntamos, nos infectamos - vírus, é isso que somos. legiões.
e continuamos [sem saber bem porque - e haveria de ter um?], sem subtrair, apenas adicionando, multiplicando.
- so[a]mando. -
"anéis, o mar, cicatrizes e serpente[s]: nossos venenos."
- como te atreves? - foi o que primeiro a feiticeira perguntou.
havia guardado, a sete chaves, nove cadeados, vinte portas de gelo maciço, dentro de si, lá onde as mãos não alcançam a caixa azul.
e de repente, ele aparece. ignora seus poderes, ignora o frio cortante que havia ao seu redor e crava em seu peito suas mãos alvas para tirar-lhe seu objeto mais perigoso.
não foi por querer, ela havia guardado a caixa por segurança: seu conteúdo não era para qualquer um.
mas ele queimou as mãos. e ele tinha as chaves. as chaves azuis. e abriu a caixa.
de um tudo que há nesse mundo, entre sentimentos e confusões, saiu de lá. a feiticeira sentiu raiva dele.
- quem era esse que tinha a coragem de re-mexer em seu interior?
“a feiticeira sempre foi conhecida por sua frieza. deitava-se na cama de muitos e só gelo lhes dava. era azul. já fora de outra cor, mas, aos poucos, foi tornando-se azul e cinza. fantasma. intocável que atravessa paredes e brinca com sentimentos alheios. boca fria, olhos frios, pele fria – sintética.”
mas uma vez aberta a caixa, nem mesmo ele conseguiu fechá-la novamente. e o mundo explodiu dentro dela como num novo big bang não-científico-dolorido-colorido-assustador[ido?].
de azul e cinza, voltou ao vermelho. lá em suas artérias o sangue fluía novamente. quente, grosso, com [pouco] gosto de ferro.
aquele homem tomou a feiticeira por abrir-lhe a caixa, mas machucou-se. era inevitável. a caixa continha não só um calor extremo, como monstros que ela ainda não havia aprendido a domar.
mas houve mais: nas mãos dele a caixa ganhou mais um objeto para [su]portar -uma felicidade sem tamanho da qual ela, no mesmo instante, teve medo de que não durasse.
e afastou-se. e foi embora. e sentiam falta um do outro, como duas metades separadas de um mesmo coração.
mas pólos que tendem à se unir não se separam, então, encontraram-se novamente, e novamente, tudo explodiu.
a feiticeira, acostumada a abrir caixas e portas, diante daquele homem ajoelhou-se: ele a havia exposto só para si, como uma brincadeira. mas expôs-se para ela. e sorriram: as duas metades estavam novamente juntas.
por quanto tempo agüentariam a explosão? nem mesmo as melhores feiticeiras saberiam dizer, mas eles estavam ensinando-se. amando-se.
então, a feiticeira riscou de seu caderno as palavras: culpa, medo, ciúmes, cristianismo, moral e tantas outras que sempre a atormentavam como se, a qualquer momentos, fosse afogar-se em uma sopa de letrinhas – mas estava reformulando algumas.
o medo do homem para quem estava exposta, passava aos poucos e ela sonhava em sua cama quente e sua nova cor: vermelha – como fogo, paixão, cabelos, ódio e angústia.
§
onde forem seus pés, os meus o seguirão. tudo em que tua mão tocar, a minha também sentirá. suas dores serão minhas dores, sua felicidade é a minha. o que teus olhos enchergarem será visto pelos meus. e dançaremos, daremos gargalhadas e atearemos fogo:oroboros.
terça-feira, 2 de março de 2010
súbita mão de algum fantasma oculto entre as dobras da noite e do
meu sono
sacode-me e eu acordo, e no abandono
da noite, não enxergo gesto ou vulto.
mas um terror antigo, que insepulto
trago no coração, como de um trono
desce e se afirma meu senhor e dono
sem ordem, sem meneio e sem insulto.
e eu sinto a minha vida de repente
presa por uma corda de inconsciente
a qualquer mão noturna que me guia.
ele dorme, eu escrevo. eu escrevo, ele lê. ele vai dormir e eu vejo seriados na TV. eu cozinho e ele navega. e comemos, devoramo-nos.
ele acha que tem um quê de maldade. eu me acho um monstro lamacento. ele crê que já causou dores, eu creio que já causei dores.
nos separamos e sinto saudades. ele ocupa boa parte dos meus pensamentos, nunca sei no que ele pensa.
somos do submundo: onde há prostituição, promiscuidade, inversões e diversões nos sentimos em casa.
a casa dele é diferente da minha. tudo parece mais aconchegante, mas a cama fica fria quando ele não está lá.
eu tempero o que ele come, ele tempera meu tédio: deixa tudo mais saboroso.
eu deixo a casa com cheiro de cigarro, ele briga. eu finjo que não ligo.
ele, às vezes, é mais novo que eu. eu, às vezes, sou mais nova que eu.
ele gosta de vulgaridades, eu gosto de ser vulgar para ele. gosto de estar aberta, exposta, à sua disposição.
ele é carinhoso, amoroso, quente, atencioso. ser amado. por mim e tantos outros.
ele gosta do meu cabelo e da minha pela branca manchada de vermelho. eu gosto da sua barba e de quando me algema.
ele jogou pela janela um objeto que demoramos para encontrar, um símbolo de um dia feliz. e eu chorei. mas tudo bem, nosso compromisso foi cauterizado em nossas peles – ferro e fogo.
ele transforma a dor em raiva – pulsões de ódio – eu transformo a dor em choro – pulsão de desespero.
eu preciso dele e creio que ele também precise de mim: agulha, linha, álcool e remédios. §- costurando -§
--[quem sabe um dia a gente se cura.]--
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
óh, meu amor, como os seus medos estavam invertidos.
você não faz ou fez mal à quem quer que seja.
não deveria jamais ter tido medo de me machucar, pois, eu sabia, que o primeiro golpe [e provavelmente todos os outros] seriam desferidos por mim.
cravei uma faca em seu peito e não sei como tirá-la.
queria curá-lo e o feri ainda mais.
mas, agora, agora sei o queve ser feito de mim: 1. corte minhas mãos. elas jamais acariciaram alguém. apenas arranham, machucam, são providas de unhas venenosas: mãos de um midas. depois, queime-as, e te garanto, meu amor, que para onde forem suas cinzas nada nascerá além de ervas venenosas. 2. corte meus pés. eles sempre estarão andando por caminhos irônicos e egoístas. são pés sarcásticos, patas de bode. queime-os também e o destino do local de suas cinzas será o mesmo de minhas mãos. 3. machuque todo o restante do meu corpo, como num suplício medieval. esse corpo é o que carrega a maldade [tenha certeza de que a cabeça seja bem triturada], depois, faça dele o que quiser, mas não o toque. há sangue de sicuta correndo por minhas veias.
e então, só então, não te farei mais sofrer.
é provável que sinta minha falta, mas a hipótese é quase correta: morta te farei menos mal do que viva.
paraíso ou inferno?
achei que havia vislumbrado um dos dois
pura mentira.
é sempre a mesma merda.
expulsa-me mas não tenho coragem de ir;
e durmo na sala, enrolada no vestido psedo-retrô de bolinhas sem saber o que houve, de verdade.
será que você poderia me explicar?
p.s.: tentei sumir de novo. sem você a vida não faz sentido. mas não tinha os acessórios adequados. não consegui ir embora. explica-me: o que fiz de mim?
não sou nada além de merda, que bóia...
deveria ter percebido issso antes.
I love you.
yo no me imagino sien ti. és parte de mi vida, de mi cuerpo, de mi sangre.
indefesa, humilhada, sangro por ti.
explica-me: o que fiz?
talvez seja como minha mãe sempre disse: - sua natureza é má e tudo o que provém dela só causa dor e desespero.
é bem provável que ela não esteja errada.
eu sou o caos, se não suporta issso, afaste-se de mim enquanto é tempo: não quero macular sua santidade, quero morrer.
levem-me, demônios, anjos, sejam lá o que for. porque você é minha razão de viver e sem você, nada mais importa.