"A Senhorita X afirma que não tem mais cérebro nem nervos nem peito nem estômago nem tripas, somente lhe restam a pele e os ossos do corpo desorganizado [...]"

domingo, 31 de janeiro de 2010

maybe


eu me engano demais ou engano demais?
confundo-me entre o que sou ele-ela-ilo-aquilo... esqueço-me do individual e choro as mágoas de meus impulsos que atingem mais do que eu.

EU?

quem sou eu? o que fiz de mim?
entrei por um corredor reto e perdi-me.
o vestido não me cabe mais. alargou-se.
ou será que fui eu quem diminuiu?

talvez eu não agüente tantas quedas quanto § pensa.
talvez eu jamais tenha levado um tombo se quer.
talvez, talvez... talvez apenas um tropeço acabe com minha altura.
talvez eu tenha apenas 1,60m e nada mais.


*

não sou rizomática. sou raiz podre por de baixo da terra.
sou verme rastejante, parasita.
não sei ser compainha ou campanheira.
somos eu e meu egoísmo. vivo assim. de um lado para outro buscando quem o suporte e não há ninguém.
o mundo é deserto e minha mente é podridão.

*

talvez, a única porta do corredor que eu tenha aberto tenha sido a que leva à morte [segredo da vida?]... ouço seus gritos e as cicatrizes coçam e me imagino com asas para voar... ah! se eu tivesse asas...

*

livra-me de meu toque de midas. livra-me de causar medo e dor.
livra-me da morte.

“cuando yo te vi en la lluvia me prometiste tu sangre...”



“[...] cargo un navaja [dios mio] para ti.



----...ademas me muero por ti...-----


quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

um conto infantil


sempre que pensava nas cortinas preocupava-se com o monstro por de trás delas.
não sabia se por medo ou [com]paixão.
dormia e sonhava com o monstro deixando seu secreto esconderijo e visitando-lhe.
acordava assustada como quem sonha que está caindo: tinha medo de altura.
mas o monstro não tinha rosto. isso à incomodava. precisava dar-lhe uma face, pois, ela sabia que o monstro existia, mas jamais pôde encará-lo, abrir as cortinas.

*

sem muitos temores [não sabia de onde lhe vinha a coragem] ergueu as cortinas e viu o monstro.
num primeiro momento, ele ofuscou-lhe a visão. tudo ficou turvo.
quando seus olhos voltaram a enxergar, a primeira imagem que viu foram os olhos do monstro.
não eram maus. nem assustadores. eram como os seus. castanhos, curiosos. pareciam conhecer o terror e a cólera, mas havia neles coragem – uma coragem com a qual ela jamais havia cruzado.
olhou, então, finalmente, a face do monstro que, em metamorfose, já não era mais monstro.

era um homem.

homem que ela mesma escondeu atrás das cortinas por não ter coragem de lembrar como era sua face.
ah, a face do homem-monstro! marcada por anos que ela ainda havia de viver e por um sorriso que ousava ser imperfeito.

e de súbito, o homem [já não-monstro] estava fora de seu esconderijo e ela descobria que era sua metade amada, perdida por décadas.

*







tomou o homem pelas mãos e o levou para a cama – para dormir e abraçar.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

be obscene baby... [and not heard]




"whatever doesn't kill you 
is gonna to leave a scar”







"bang, we want it.
bang, we want it.





-bang, bang, bang, bang, bang-

you came to see the mobscene, […]
and it's so fucking obscene."

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

devir animal



"os bandos, humanos e animais, ploriferam com os contágios, as epidemias, os campos de batalha e as catástrofes. é como os híbridos, eles próprios estéreis, nascidos de uma união sexual que não se reproduzirá, mas que sempre recomeça ganhando terreno à cada vez. as participações, as núpcias anti-natureza são a verdadeira Natureza que atravessa os reinos. a propagação por epidemias, por contágio, não tem nada a ver com a filiação por hereditariedade, mesmo que os dois temas se misturem e precisem um do outro. o vampiro não filiaciona, ele contagia.

[...]

estamos longe da produção filiativa, da reprodução hereditária, que só retém como diferenças uma simples dualidade dos sexos, no seio de uma mesma espécie, e pequenas modificações ao longo das gerações. para nós, ao contrário, há tantos sexos quanto termos em simbiose, tantas diferenças quanto elementos intervindo num processo de contágio. sabemos que, entre um homem e uma mulher passam muitos seres, que vêm de outros mundos, trazidos pelo vento, que fazem rizoma em torno das raízes, e não se deixam compreender em forma de produção, mas apenas de devir. o Universo não funciona por filiação. nós só dizemos, portanto, que os animais são matilhas, e que matilhas se formam, se desenvolvem e se transformam por contágio."


[-deleuze-guattari-]

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

resposta


tinha em mente algumas coisas para escrever, imagens sangrentas para usar, palavras de ódio contra o que me afeta para declarar. mas delas me olvidei. meus olhos transitaram por palavras tão nuas, quentes, intensas e alegres que me esqueci do rancor que queria demonstrar.

*

há um novo começo. parece que tudo vai surgir a partir de agora.
é a criação: nada mais belo haverá de existir.
é o momento: explosão e intensidade. surdez. mudez. cegueira. falta de tato.

todos os sentidos falham, mas o coração parece que quer sair pela garganta e ir buscá-lo, trazê-lo para perto, para dentro – sentido número seis.
o que eu quero? um beijo, mãos dadas, um abraço e um afago.
mais que isso, quero gritar. sem voz, com o corpo: amo-te. plenamente. quero-te: como homem, ou bicho, ou mulher – ou homem-bicho-mulher.

e chego a conclusão: estou contaminada, de pernas e mãos atadas, deitada em líquido quente; precioso. não há por onde, nem porque, escapar.
[não quero escapar, não de novo]

o que fazer?
- a-m-a-r-

*





"não foi propósito, não.
os seus gestos inocentes
tocavam no coração
como invisíveis serpentes [...]"
- fernando pessoa.